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  13:33

 Marcus Paixão prepara livro que defende que o Cemitério do Monumento é um mito (Foto: Otávio Neto / Em Foco)

‘Campo Maior surgiu a partir da fazenda Bitorocara’, defendeu padre Cláudio Melo ao publicar em 1983 o livro Primórdios de Nossa História. A tese foi aceita. Em 2015, 32 anos depois, o historiador Marcus Paixão a questionou. No livro Campo Maior Origens, Marcus apresenta a tese que Bitorocara se encontrava às margens do Rio Parnaíba e não teria como ser a fazenda que originou a cidade. 


Agora, Marcus Paixão está prestes a lançar novos questionamentos sobre histórias consagradas entre os pesquisadores locais. No livro Ensaios do Norte, que deve ser lançado em março, Paixão afirma que os corpos que tombaram na Batalha do Jenipapo não estão sepultados no cemitério do Monumento. “É um cemitério de marketing”, comenta sobre o local que atrai uma grande quantidade de turistas anualmente. 


Entre livros do velho acervo da biblioteca municipal Marion Saraiva, no centro de Campo Maior, numa nublada manhã de sexta-feira, Marcus Paixão conversou com o Em Foco sobre sua nova publicação, os desafios da produção cultural local, criticou a atuação das academias de letras e a falta de apoio para escritores locais. 

 

 

Em FocoMarcus, você prepara o lançamento de sua nova obra, Ensaios do Norte, que vem a ser seu sétimo livro. De que trata essa publicação?


Marcus Paixão - Ensaio do Norte é uma reunião de artigos que eu publico no meu blog (Pensando a história) no Campo Maior Em Foco. Os textos tratam sobre diversos assuntos: história, teologia, cultura. Um amigo que acompanha meus artigos no site sugeriu que eu os reunisse num livro. Eu abracei a ideia. Me aprofundei nas pesquisas e ampliei esses artigos para leva-los ao livro. Além disso, preparei artigos inéditos que nunca foram publicados. Estamos trabalhando para lança-lo nas comemorações do 13 de março. 


Em FocoDentre esses artigos inéditos, chama atenção o que afirma que os mortos da Batalha do Jenipapo não estão sepultados no cemitério do Monumento. Como você chegou a essa conclusão?


Marcus Paixão – O cemitério da Batalha é criado com a intenção de ser o cemitério de soldados, dos guerreiros da Batalha do Jenipapo. Muito provavelmente não há ninguém que participou da Batalha sepultado nele. É um cemitério de marketing. Há documentos da câmara de Campo Maior sobre a construção de um obelisco no local para homenagear dos combatentes e não há qualquer menção a cemitério. Há fotos antigas que fotografam o obelisco, no entanto, não mostra nenhuma sepultura. Não posso categorizar, mas levanto essa discussão: se há mortos da Batalha enterrados ali.  

 


Em FocoNo mesmo capítulo você desmente a ideia que o general Cândido Borges Castelo Branco, pai do marechal Humberto Castelo Branco, que foi presidente da republica no regime militar, seja enterrado em Campo Maior. Em que se baseiam suas conclusões?


Marcus Paixão – Existe a ideia que o general Cândido Borges Castelo Branco está sepultado no cemitério da Irmandade de Santo Antônio (Cemitério Velho). E que o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco nasceu em Campo Maior. Facilmente refutam-se esses mitos. Cândido Borges nasceu em Campo Maior, mas faleceu e foi sepultado no Rio de Janeiro. Eu trago recortes de jornais do Rio de Janeiro mostrando seu sepultamento. E o ex-presidente nasceu no Ceará, visitou Campo Maior no aniversário de 100 anos de seu pai e ganhou o título de cidadão de Campo Maior. Ele é campomaiorense de título, não de nascimento. 


Em FocoMuitos questionam seus posicionamentos. No livro Campo Maior Origens você refuta a teoria que Bitorocara deu origem a Campo Maior. Agora trás outros três temas polêmicos. Seu objetivo é recontar tudo o que se sabe até hoje de nossa história?


Marcus Paixão – Não tenho objetivo de refutar. Acho o Padre Cláudio de Melo o maior historiador do Piauí, mas ele defendeu que Bitorocara tinha dado origem a Campo Maior e manipulou as fontes para que sua tese fosse válida. Meu objetivo é trazer questionamentos para abrir as discussões e entusiasmar outros historiadores para aprofundarem suas pesquisas. 


Em Foco Campo Maior possui duas academias de letras. Contudo, suas atuações são tímidas e pouco produtivas. Você as observa assim?


Marcus Paixão - As duas academias são muito importantes para Campo Maior pelas suas representatividades. No entanto, poderiam produzir mais. Poriam contribuir mais com a leitura, com as produções locais. Espero que no futuro elas tenham força e contribuições bem maiores que têm hoje. Existe nas academias um elitismo muito grande. Se cria um círculo distante da sociedade. 

 

Em Foco O seu estilo de escrita, busca atingir que público? 


Marcus Paixão – Uma crítica muito grande que faço aos historiadores é que a linguagem do historiador é muito difícil. Percebi desde a universidade que há um excesso de linguagem acadêmica. Fora da academia isso não é muito aceito. Uma das minhas bandeiras é escrever para o povo. Meu objetivo é que qualquer pessoa que leia meus livros entenda o que eu quero dizer. Busco escrever de uma forma não muito rasa e sem ser muito elevado no entendimento. 

 


Em Foco Você acha que o campomaiorense negligencia escritores locais? 


Marcus Paixão – Tivemos um período que povo lia menos. Hoje o brasileiro ler mais, escreve mais motivado pelas redes sociais. O grande problema é que o governo não aplica o recuso necessário. Nós temos uma biblioteca em Campo Maior ultrapassada. A estrutura velha, um acervo velho. Penso que devemos ter uma grande biblioteca central, nova, moderna e bibliotecas menores nos bairros. Se o povo não vem ao livro, temos de levar o livro até o povo. 


Em Foco O poder público patrocina boa parte das produções locais. Qual o papel da iniciativa privada o custeio da produção cultural local? 

 

Marcus Paixão - A inciativa privada patrocina de forma acanhada. O poder público geralmente ajuda em 50% da impressão, o autor entra com 20%. Você vai atrás de um patrocinador pra fechar o valor ele quer dá R$ 50 ou R$ 100 pra empresa dele sair no livro. Não é viável dessa forma. 

 

Em FocoFalta espaço para nossa cultura na mídia, na imprensa local?


Marcus Paixão - Tivemos avanço na imprensa. O Campo Maior Em Foco foi o primeiro a perceber isso quando me convidou para escrever num blog só sobre a história de Campo Maior. O rádio ainda é acanhadíssimo. De vez em quando vai alguém dar uma entrevista. A mídia imprensa é muito pequena. Mas a mídia está olhando mais para a cultura, para o turismo. 

 

Por: Por Otávio Neto

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