
O jornalista especializado em gastronomia, J.A. Dias Lopes, publicou crônica em seu blog no site da Revista Veja sobre os caminhos do charque brasileiro e coloca Campo Maior como um dos mais conhecidos centros do nordeste que continua a trabalhar a desidratação da carne, neste caso, a nossa carne de sol, que o especialista diz ser diferente do charque.
O texto inicia falando do charque no Brasil, desde o período colonial, da cozinha piauiense e chega a Campo Maior, no Piauí, que faria a melhor carne de sol do país, título que o jornalista não se opõe em nenhum momento.
“Tinha ouvido falar muito pouco da cozinha do Piauí, que fui conhecer pessoalmente. Grata surpresa! Básica, simples e sem rodeios, revela-se extremamente apetitosa. Um dos ingredientes que processa divinamente é a carne de sol, considerada por alguns a melhor do Brasil” escreveu para apresentar a crônica.
J.A. Dias Lopes esteve em Campo Maior no dia 04 de março e conversou muito com o historiador Marcus Paixão, que escreve um blog no Em Foco, falando sobre a história e cultura de Campo Maior. E foi neste Blog que Dias Lopes leu a "A História da carne de sol de Campo Maior" e se interessou pela culinária do Piauí e a carne de sol de Campo Maior.
Marcus, por sua vez, diz que Campo Maior sendo retratada a sua história, sua rica cultura do gado e das seculares fazendas, além da sua inigualável carne de sol, é uma exposição muito benéfica e que deve deixar todo campomaiorense orgulhoso de sua terra natal e suas raízes.
"Fiz questão de presentear o jornalista com uma edição do livro "Campo Maior Origens", onde terá a oportunidade de conhecer mais acuradamente a história da cidade. Como historiador, recebe-lo em minha casa, e saber que meus textos chegaram ao seu conhecimento e despertaram sua atenção, é um reconhecimento do dever cumprido. Agradeço a Deus pela bondade" escreveu em sua rede social.
J.A. Dias Lopes, Marcus Paixão e o fotográfo que acompanhou o jornalista
LEIA ABAIXO O TRECHO DA CRÔNICA QUE FALA NA CONZINHA PIAUIENSE E NA NOSSA CARNE DE SOL
[... O Nordeste continua a desidratar a carne à moda antiga, mas agora prefere empregar um método diferente. Utiliza toda a carcaça bovina, pulverizada com menor quantidade de sal. Submete-a a tratamento rápido. O alimento fica internamente úmido. A carne também pode ser caprina ou ovina. Denomina-se o produto final de carne de sol, carne do sertão ou carne de vento.
Um dos mais conhecidos centros do seu preparo se encontra no Piauí, a 84 quilômetros da capital Teresina. É a cidade de Campo Maior, com mais de trezentos anos de existência e pouco mais de 45 mil habitantes. Encontra-se cercada por uma vegetação de transição para caatinga, dotada de vegetação rasteira e poucas árvores. Os campos planos, conhecidos como campinas, ocupam extensas áreas adequadas à pecuária. O gado chegou ali no século 17 e se multiplicou. Resultou tão numeroso que os preços despencaram.
Segundo o historiador Marcos Vinícius Paixão, no livro “Campo Maior – Origens” (Edição do Autor, Piauí, 2015), um boi chegou a ser trocado por dois litros de cachaça, uma vaca por cinco galinhas ou dois perus. O autor fez as contas: “Para cada quilo de galinha, era preciso pagar com 32 quilos de carne”.
Foto: Domingos José
Campo Maior é cortada pela rodovia BR-343, que atravessa o Piauí no sentido diagonal. Ao longo do trecho urbano existem cerca de 20 açougues. Outros funcionam perto da rodoviária. Compram a carne de abatedores e a convertem, no próprio local da comercialização, em carne de sol. A seguir, deixam o produto à venda, dependurado em ganchos, em locais abertos e ventilados, parecidos com palhoças. Peças inteiras de carne de sol e úberes (mamas das vacas) ficam expostas ao público, consumidor tradicional ou turista.
Os clientes, que chegam de todas as partes, preferem adquiri-las com três dias de cura, pagando entre 32 e 35 reais o quilo. Campo Maior dispõe de carne de sol para se comer à vontade: às vezes a cidade comercializa quase uma tonelada do produto por semana. É considerada por muitos “a melhor do Brasil”. Alguns dos seus destinos culinários: coxinha frita (substituindo a carne de galinha), grelhados, churrasco na brasa, frituras, escondidinho de macaxeira (mandioca), arroz Maria Isabel, paçoca de pilão e cobertura de pizza junto com queijo coalho.
Em Teresina, há restaurantes especializados em carne de sol, sendo mais famoso o São João, com três endereços. A matriz se localiza na Rua João Cabral, 2340, no bairro Pirajá. Mas o São João não compra carne de sol de terceiros, cozinha a de sua elaboração própria. Usa filé mignon curado no sal, que vai à mesa em porções de 300, 500 ou 800 gramas; ou, então, pesando um quilo.
Antes de colocar na travessa ou prato de servir, frita a carne na frigideira e depois a mergulha na manteiga da terra ou de garrafa. Acompanha vinagrete, baião de dois, farofa e macaxeira cozida, que convertem o almoço jantar em uma refeição completa. Popular e apetitosa, a carne de sol só necessita de um reparo: tem nome paradoxal. Na prática, entretanto, não vai ao sol durante o processo de desidratação, “para evitar endurecer”, Portanto, deveria chamar-se carne de vento, o nome antigo, ou então de carne de sombra.
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